sábado, 18 de julho de 2009

MUDANDO VELOZMENTE

LEITURA RECOMENDADA PARA O RECESSO ESCOLAR

" Tive o prazer de ouvir o filósofo e professor Mário Sérgio Cortella recentemente e depois disto, começei a ler algumas das suas reflexões. Dentre as tantas que gostei, destaco esta, onde ele comenta sobre a rapidez das transformações e diz que para sobreviver num mundo que muda em grande velocidade é preciso ser capaz de antecipar. Gostaria que todos vocês lessem as partes que selecionei, pois acredito que nós, que trabalhamos com educação, precisamos estar atentos a esta reflexão, para quem sabe, repensarmos nossas ações . Boa leitura e boa recarga de energia à todos!

"A velocidade da mudança é a novidade do mundo contemporâneo. Nunca, em toda a história humana, a sociedade mudou com tanta velocidade. É preciso estar atento para não ser atropelado pela mudança nem ser pego por suas armadilhas, como a arrogância e a acomodação. A única maneira de enfrentar isso é ter humildade para aprender, capacidade de perceber que não se pode mais sobreviver do mesmo modo que se vivia, e que é preciso antecipar-se à mudança. A velocidade da mudança é tamanha, que a cada dia você levanta mais cedo e vai deitar mais tarde, sempre com a sensação de que está perdendo tempo. Nem bem saímos de um fim de semana, outro já chegou, o Natal está próximo e o ano está acabando. Lembra, quando você era criança, como as férias de final de ano demoravam a passar? Hoje tudo é fast. O ritmo que essa velocidade imprime à nossa vida altera o nosso modo de ser, de conhecer e aprender. O horário das aulas foi ultrapassado pelas mudanças. A aula tradicional - de cinqüenta minutos durante o dia e quarenta e cinco à noite - foi fixado no começo do século passado, depois que psicólogos constataram ser este o tempo limite no qual a criança e o jovem conseguiam se manter atentos. Esta pesquisa foi refeita há dois anos e o tempo médio que uma criança ou um jovem presta atenção em alguma coisa é de seis minutos. Isto porque as novas gerações cresceram assistindo a programas infantis de TV em que os blocos são de seis minutos. Essa velocidade provocou outra mudança: a distância entre as gerações deminuiu. Choque de gerações antigamente era choque entre pais e filhos. Hoje, choque de geração é imediato; meu filho de vinte e seis anos é considerado ultrapassado pela minha filha de vinte e quatro anos. Por sua vez, o mais novo, de vinte e um, considera os dois mais velhos ultrapassados. Eles não cortam cabelo do mesmo jeito, não ouvem o mesmo tipo de música e não usam o mesmo tipo de roupa. "

" Há uma lista eletroeletrônicos que não faziam parte da nossa vida há uma década ou um pouco mais: DVD, microondas, câmara digital, celular, CD, TV a cabo. Também não havia internet, cartão de banco e computador pessoal eram recentes, mouse ainda não existia. Nesse período quantos equipamentos ficaram obsoletos: máquina de escrever, fax, telefone com disco, vitrola, três-em-um, elepê, toca-fitas, telex, videocassete, bip, Pager, várias gerações de computadores, Polaroid. O videocassete ficou obsoleto sem que a maioria das pessoas mais idosas tenha aprendido a programá-lo; quando querem gravar um programa, elas recorrem ao filho ou ao neto. Sabe como você sabe que a casa não tem criança? O relógio do videocassete fica piscando. O sujeito então desliga o aparelho. Este comportamente, é grave, pois mostra que, em vez de tentar aprender o novo, o indivíduo quer recuperar o antigo, está desistindo, e é atropelado pela velocidade da mudança."

" Velocidade acarreta perdas . A velocidade trouxe prejuízos a valores importantes da vida humana, como a relação de confiança e a paciência. Como tudo é veloz, não dá tempo de conhecer as pessoas. Há vinte anos, fazíamos compras em armazéns, empórios e mercearias; o funcionário anotava a lápis numa caderneta, que ficava de posse do cliente e era acertada no fim o mês. O dono sabia em quem podia confiar e em quem não podia. A velocidade é ambígua e temos que ter cuidado com ela. Queremos velocidade na hora de sermos atendido por um médico, mas não queremos velocidade na consulta. Queremos velocidade na hora de sentar num restaurante para comer, mas não queremos ter de comer velozmente: Queremos ser atendidos com presteza pelo call center, mas queremos usar o tempo que for necessário no atendimento. Algumas pessoas se submetem à velocidade como se ela fosse uma ditadura, e isto acaba estilhaçando uma das coisas mais importantes para nossa capacidade de conviver, de aprender e de saber, que é a paciência. A gente não tem mais paciência para cuidar, paciência para aprender. Se o seu computador demora vinte segundos para abrir um programa, você fica paducando no teclado. Por falta de tempo, corremos o risco de perder, por exemplo, a arte de se tocar piano, pois se levam nove anos para aprender praticando horas e horas por dia. E os jovens não têm tempo para isso. "

" Idoso é diferente de velho . É preciso não cair numa armadilha de confundir idoso com velho. Idoso é quem tem bastante idade, velho é o que acha que já sabe, que já está pronto. Velho é arrogante. Idosa é uma pessoa de sessenta anos, sessenta e cinco, setenta; velho você pode ser aos quinze anos de idade, aos vinte, trinta, quarenta, cinqüenta, sessenta. Velho não tem humildade, não aprende, perece, porque é incapaz de acompanhar a mudança. Algumas empresas, há alguns anos, fizeram uma bobagem, em nome da reengenharia, mandaram embora vários idosos e ficaram com um bando de velhos. Agora, estão chamando os idosos de volta, com o nome de consultor. Ao mandar o idoso embora, o que ela mandou junto? A renovação. Gente idosa é cheia de vitalidade. Essa vitalidade é a capacidade de antecipar, de ficar em estado de prontidão, não esperar as coisas acontecerem, ir atraz. A essa capacidade, dá-se hoje o nome de produtividade. É diferente de reatividade, que é aguardar para ver o que acontece. O velho é reativo, o idoso é pró-ativo. Um dos piores perigos é quando a gente se acomoda, porque acomodar é perecer. A satisfação paralisa, amortece, faz com que a gente se acomode. Guimarães Rosa diz isso num dos seus momentos mais geniais:" o animal satisfeito dorme." Por isso, a regra básica para não perecer é não estar satisfeito. "